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quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Cordel da enfermagem

Certa vez recebi um desafio de uma amiga enfermeira: falar sobre enfermagem na forma de cordel. Foi um desafio de respeito para mim, pois sei tão pouco - ou quase nada - sobre enfermagem. Ela tinha um trabalho para apresentar em uma certa disciplina na faculdade e a professora exigiu que o resultado da pesquisa fosse apresentado nesse formato poético. Parei por alguns instantes, fiz umas perguntas a ela e - não sei se prestou ou não - o resultado final é este que vocês podem conferir abaixo.

O que sei sobre enfermagem

Cara professora,
colegas de estudo
e demais que aqui estão,
Peço a vocês licença
Para falar de uma profissão
que é nobre em sua essência
E ajuda a salvar mais de um milhão.

Vamos discutir sobre a enfermagem
Uma sagrada profissão
Desde os primórdios da doença
Que o enfermeiro cede atenção
No hospital ajuda ao paciente
A ficar bom de coração.

Antes de iniciar,
Preciso de inspiração
Invoco os sagrados poetas,
Às ninfas faço alusão.
Preciso da ajuda de todos
Para com maestria
Falar de uma tão nobre profissão.

Para ser enfermeiro,
É preciso muito estudo
Amor acima de tudo
Cuidar do outro sobretudo
Pois um enfermeiro é ninguém
Se não tiver dedicação em tudo.

Enfermagem é cuidar, educar e orientar
Paciente, família e comunidade
Dessa forma é que se dá
Uma grande contribuição
À sociedade em que se está,
Estimulando o cuidado e a prevenção,
Trazendo qualidade de vida à população.

A enfermagem teve início
Nos primórdios da civilização
Desde que o homem é homem
Que existe essa profissão
Foi ajudando em casa
Que primeiro se cuidou da população.

Teve uma fase que até
A igreja estava no meio
Práticas de saúde mágico-sacerdotais
Vixe! Era um aperreio
Se misturava o que era do demônio
Com um simples devaneio.

Essa foi a fase do empirismo
Que foi antes da especulação filosófica
Mais tarde foi que surgiram
As escolas mais metódicas
Ensinavam a arte de curar
Foi no sul da Itália e Sicília
E depois começou a se espalhar.

O enfermeiro pode ser assistente,
Gerente e/ou pesquisador
Isso ele decide,
Às vezes, inspirado pelo professor
Contudo ele não sabe
Que na saúde e na pobreza
O salário é sofredor.

Eu estou no Osvaldo Cruz
Observando para aprender
É um desafio para mim
Mas hei de vencer
Há dias que só Deus
É capaz de me compreender.

No Osvaldo estudo semiologia,
Que é o mesmo que propedêutica.
Nela analisamos os sinais
E os sintomas das doenças animais.

Estudo também a semiotécnica
Ou técnicas do exame clínico
Que utilizo em minha prática médica.
No exercício da enfermagem,
Durante minha abordagem,
Faço tudo como esteta.

11 homens e um segredo
É assim nossa constituição
Somos uma equipe grande
Na qual todos entram em ação
Citarei todos os nomes
Por favor, prestem atenção.

Jacyara, Winny e Carolina
São três que o nome não rima.
Carmem, Débora e Wellinja
Pra rimar tem que ser um ninja.

Marcos Alexandre da Silva Ferreira
Esse passou na peneira
É o único homem do grupo
É o que está solto na bagaceira
Um homem entre dez mulheres
Pense numa zoeira!

Maria Tathiane, Bárbara e Fernanda
Mais três sem as quais nosso time não anda.
Por último tem Ericka Noêmia
A menina que é boêmia.
11 homens e um segredo?
Ninguém sabe o que a gente esconde
Mas os 11 estão revelados
Todos acima, nome a nome.

Agora finalizamos por aqui
Este singelo e humilde cordel
Esperamos que a professora e os colegas
Tenham gostado do que está neste papel
Agora eu me despeço,
Peço um aplauso caloroso
E à professora, um 10 de sucesso.

Esse foi um pouco
Do que eu sei sobre
Isso, a enfermagem, tenho dito.
Garanto que queria
Incluir mais que o que aqui foi dito
Liberdade para escrever
Só nas palavras que escolhi
Ou talvez, quem sabe
Nem nisso.

Eu tenho um espaço que devo
Respeitar neste papel
Inteligente será
Cumprí-lo e ser fiel. Melhor que falar um
"Kilo" e não ganhar uns
Aplausos ao final do meu cordel.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Mãos de Giz

Para o dia dos professores, uma postagem para homenagear uma tão nobre profissão.


Mãos de Giz

Outra vez, olho minhas mãos.
Mãos coloridas: azuis, amarelas,
verdes e brancas... eterno branco.

Sinto uma alegria,
e a lágrima visita
os olhos.

Nos olhos, pó.
Na lágrima, pó.
Nas roupas, nos pelos e na língua, pó.

E nas mãos? Puro pó.
Elas desenham, com pó, a sabedoria da Gramática.
É a gramática da vida.

Todos os dias me emociono,
na sala de aula ou fora dela,
quando olho minhas mãos.

Mãos coloridas como a bandeira do meu país.
País que tentamos, com as mãos sujas de giz,
tirar do pó.

(Prof.° Marcos Souza – Poema publicado na página 03 da Revista Construir Notícias)

domingo, 19 de maio de 2013

Psicologia de um vencido, de Augusto dos Anjos


Para começar bem a semana, um poema forte. Boa leitura.


PSICOLOGIA DE UM VENCIDO

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

(Augusto dos Anjos)

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Poema em Linha Reta, de Álvaro de Campos

Álvaro de Campos, um dos heterônimos de Fernando Pessoa, deixou-nos um inspiradíssimo poema, o qual certa vez foi interpretado em uma novela televisiva. Deleitem-se com a leitura do poema e a interpretação de Osmar Prado.


Poema em linha reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

(Álvaro de Campos)

domingo, 7 de abril de 2013

Fernando Pessoa - Mar Português

Atendendo a pedidos, posto um famoso poema de Fernando Pessoa, um grande poeta português. Boa leitura.


Mar Português

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

domingo, 10 de março de 2013

Alma minha gentil, que te partiste

Soneto de um famoso clássico da Literatura Portuguesa. O grande Camões. O soneto abaixo foi escrito em homenagem a sua finada noiva. Observem a dor, a tristeza, a saudade e o amor expressado pelo eu-lírico. Boa leitura.

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.

(Luís Vaz de Camões)

segunda-feira, 4 de março de 2013

Soneto do Desmantelo Azul

Poema de um poeta recifense com um forte apelo pictórico. É uma boa leitura para começar o dia.

Soneto do Desmantelo Azul

Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori, as minhas mãos e as tuas.

Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.

E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.

E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.

(Carlos Pena Filho)